10 de dezembro de 2025
No parque comunitário da favela Jardim Colombo, Rita Krejici, funcionária da Mastercard, repinta pneus que servem de suporte estrutural na encosta do bairro. (Crédito da foto: André Del Casalle)
Nas profundezas das encostas de São Paulo, um terraço em degraus feito de pneus velhos se transformou em um arco-íris, com listras rosa, turquesa e amarelo-limão em ziguezague ao longo de um pedaço de terra escondido. O que antes era uma fazenda abandonada transformada em aterro sanitário é agora um lembrete vívido do que vizinhos e voluntários podem construir quando os recursos são escassos, mas a determinação é abundante.
Por trás dessa explosão de cor, existe um plano meticuloso, concebido para garantir que o trabalho de instalação resulte em algo mais do que uma simples melhoria estética. Assim como muitas organizações sem fins lucrativos, o Instituto Fazendinhando, organização comunitária por trás do projeto de embelezamento da região, enfrenta o desafio persistente e pouco glamoroso de manter sua missão após o término do trabalho voluntário e da campanha para gerar fotos para a mídia. Com muita frequência, as organizações sem fins lucrativos que mais se dedicam ao trabalho enfrentam doações irregulares, subsídios vinculados a requisitos restritos e ciclos de financiamento fora de seu controle, tudo isso em meio à pressão constante para demonstrar impacto e, ao mesmo tempo, cobrir os custos do dia a dia.
Por essa razão, a receita recorrente é considerada o padrão ouro no desenvolvimento de organizações sem fins lucrativos. Isso proporciona uma renda previsível e espaço para planejar o futuro, dois fatores necessários para expandir a missão de uma organização. Mas desenvolver sistemas de pagamento, estruturas de preços, fluxos de doadores e modelos financeiros de longo prazo exige tempo e conhecimento especializado que muitas pequenas ONGs simplesmente não possuem.
Cerca de cinquenta funcionários da Mastercard, de três departamentos diferentes, uniram forças para revitalizar a favela, não apenas fisicamente, mas também financeiramente, prestando consultoria para uma ONG de grande impacto (foto à esquerda). À direita, a líder da iniciativa, Beatriz Mello, revitaliza os becos da comunidade com camadas de tinta coloridas. (Crédito da foto: André Del Casalle)
Reconhecendo essa lacuna, uma equipe de voluntários da Mastercard em São Paulo elaborou um plano para fortalecer a situação financeira de uma organização sem fins lucrativos local e, com isso, sua capacidade de atender a um bairro que depende dela. Ao longo do último ano, os funcionários da Mastercard fizeram parceria com o Instituto Fazendinhando para ajudá-lo a cumprir sua missão de revitalizar espaços públicos e melhorar as condições precárias de moradia em Jardim Colombo, um bairro localizado a cerca de 2,4 quilômetros do escritório da empresa.
O que começou como um projeto de consultoria estratégica evoluiu para seis meses de trabalho envolvendo 55 voluntários em três departamentos da Mastercard, mais de 250 horas de consultoria e 200 horas passadas na comunidade, lado a lado com os moradores.
Jardim Colombo faz parte do Complexo Paraisópolis, um conjunto de quatro bairros pobres e desordenados, conhecidos como favelas, na Zona Oeste de São Paulo, que juntos abrangem cerca de 250 acres e ficam ao lado de bairros de renda mais alta que passam por rápido desenvolvimento. O bairro Jardim Colombo abriga cerca de 18.000 moradores em uma área de 37 acres, no terreno de uma antiga fazenda.
Durante anos, a comunidade não teve praça ou parque público, apenas um lixão informal que se tornou um problema de saúde pública. Há alguns anos, os moradores se organizaram com parceiros locais para limpar a área e transformá-la no Parque Fazendinha, um parque construído pela comunidade, que recebeu o nome da antiga “pequena fazenda” do local. Esse esforço foi posteriormente expandido para reparos em moradias, melhorias em espaços públicos e programas de apoio a mulheres chefes de família durante a pandemia.
O Parque Fazendinha, que significa "fazendazinha", era anteriormente um depósito de lixo, mas os moradores locais se organizaram para limpá-lo, o que impulsionou outras melhorias no bairro. Aqui, os voluntários da Mastercard continuam esses esforços. (Crédito da foto: André Del Casalle)
Os moradores, que já vinham mobilizando o bairro há quase uma década, criaram formalmente o Instituto Fazendinhando em 2021. Uma de suas cofundadoras, a arquiteta e ativista Ester Carro, tornou-se uma das líderes mais visíveis do movimento de urbanismo nas favelas de São Paulo. Em 2023, Carro foi incluída na lista Forbes Under 30 Brasil na categoria design por seu trabalho com o instituto.
Em 2021, Jônathas Albuquerque, vice-presidente e diretor da Mastercard Advisors, começou a buscar oportunidades para que os membros do escritório de São Paulo pudessem contribuir com a comunidade local. Para obter o apoio de seus funcionários, ele sabia que precisava procurar um parceiro que aproveitasse a experiência empresarial da equipe como o braço de consultoria da empresa, que ajuda os clientes a aprimorarem suas estratégias e operações.
“Eu queria encontrar iniciativas de voluntariado que aproveitassem o que fazemos de melhor, e o que fazemos de melhor é desenvolver negócios”, diz Albuquerque. “Acredito que isso tenha um impacto maior a longo prazo do que pintar ou reformar apenas um prédio.”
O Instituto Fazendinhando destacou-se, afirma Beatriz Mello, consultora associada que liderou a iniciativa, pelo seu “trabalho muito sólido com infraestrutura e arquitetura social” no Jardim Colombo.
Ao longo do projeto, o trabalho da equipe acabou envolvendo algumas tarefas práticas, além da consultoria. Em uma dessas iniciativas, voluntários das equipes da Mastercard Advisors, Digital Labs e Corporate Security do Brasil ajudaram a repintar a Fazendinha, que utiliza pneus reciclados como técnica de sustentação estrutural, removeram entulhos do local e instalaram mosaicos em uma escadaria bastante utilizada. Em outra iniciativa, a equipe pintou as paredes e fachadas das casas ao longo dos becos da comunidade, levando cor e alegria aos moradores locais.
O voluntário João Moretti aplica pedaços de azulejo quebrado nos degraus do parque. (Crédito da foto: André Del Casalle)
Mas, no âmbito da consultoria, a equipe se concentrou em desenvolver a capacidade de alcançar a estabilidade financeira que a maioria das organizações sem fins lucrativos tem dificuldade em obter. A Mastercard Advisors trabalhou com os líderes do Instituto Fazendinhando para desenvolver uma estrutura de doações recorrentes, um plano de crescimento de cinco anos e um modelo de custos que a organização pudesse usar com futuros parceiros. Eles também criaram uma apresentação comercial e outros materiais que, segundo a equipe, já deram frutos.
O Instituto Fazendinhando colocou os materiais de consultoria em prática quase que imediatamente. Mello afirma que um dos fundadores já utilizou a abordagem comercial, o que ajudou a organização a garantir doações de duas grandes empresas em São Paulo.
Albuquerque acrescenta que o apoio deles ajudou a resolver questões sobre a capacidade operacional que estavam a travar o crescimento do instituto. “Eles estavam muito confusos sobre como poderiam expandir”, diz ele. “Eles deveriam ir a outras comunidades ou deveriam se concentrar nesta comunidade?” Nós fornecemos a eles um plano e dissemos: 'É assim que vocês podem crescer.'"
E embora Jardim Colombo fique perto do escritório da Mastercard, muitos voluntários nunca tinham visitado o bairro. Até mesmo moradores de longa data de São Paulo descreveram a experiência como um choque de perspectiva. “Precisamos entender a realidade ao nosso redor se quisermos causar impacto e realmente nos importar com as pessoas”, diz Albuquerque. “É injusto projetar produtos apenas com base em nossa própria experiência, quando representamos apenas 1% da população. Precisamos conhecer a realidade dos outros para criar soluções que se adaptem às suas vidas.”
Mello afirma que o tempo que passou na comunidade mudou a forma como ela vê seu próprio papel: "De uma forma pessoal, foi muito importante para mim quebrar os preconceitos inconscientes que todos nós temos", diz ela, acrescentando que, na primeira vez que visitou a favela, sentiu-se incomodada com a gritante desigualdade de riqueza.
“Isso choca porque você vê muita pobreza”, diz ela. “Mas acho que o principal aprendizado é que… temos que ir, temos que fazer mais.” E isso não se aplica apenas ao nosso trabalho, mas também ao nosso dia a dia.”
Como o projeto demonstrou, "fazer mais" pode simplesmente significar estar presente de forma consistente, oferecendo ajuda e conhecimento profissional a locais que estejam preparados para recebê-los. Para organizações sem fins lucrativos em todo o mundo, esse apoio pode ser tão importante quanto o financiamento.