26 de setembro de 2022
O Parque Ibirapuera é um paraíso para os aficionados por exercícios físicos, um oásis de quase 160 hectares no meio da selva de pedra de São Paulo, que atrai milhares de pessoas diariamente. Alguns deles param em um St. Marche, uma rede de supermercados sofisticada do bairro, na Alameda Jauaperi, para comprar água ou um lanche depois do treino. Isso significava ter que equilibrar carteiras, celulares e novas compras — até recentemente.
Agora eles entram, pegam o que precisam, dão um sorriso no caixa e vão embora, diz a gerente da loja, Adriana Souza. Um sorriso de um milhão de dólares? Não — a loja faz parte de um programa piloto para testar o pagamento biométrico, onde os clientes podem pagar suas compras simplesmente apresentando seu rosto a uma câmera no caixa.
É a mais recente evolução da experiência de pagamento sem contato, impulsionada pela biometria, a tecnologia de autenticação que antes era domínio da ficção científica, mas agora é usada em tarefas cotidianas, desde desbloquear nossos smartphones até acessar edifícios. Prevê-se que o mercado de tecnologia biométrica atinja US$ 18,6 bilhões até 2026, com uso crescente em aeroportos e controle de fronteiras, bem como em serviços financeiros, saúde, indústria automotiva e outros setores.
A autenticação biométrica, combinada com a criptografia de dados, pode ajudar as pessoas a proteger e controlar seus dados, afirma Ajay Bhalla, presidente da divisão de Cibersegurança e Inteligência da Mastercard. Sua equipe lançou o projeto piloto com a Payface, empresa brasileira de tecnologia biométrica.
“A biometria — o uso de identificadores físicos para comprovar que você é quem diz ser — é fundamental para criar, gerenciar e verificar nossas identidades em um mundo que se digitaliza rapidamente”, afirma Bhalla.
Com o pagamento biométrico, os clientes não precisam mais encostar ou inserir um cartão ou usar a carteira digital — tudo o que precisam é do rosto, da palma da mão ou da íris.
A Mastercard desenvolveu os padrões e diretrizes que bancos, comerciantes e fornecedores de tecnologia como a Payface devem seguir para tornar a experiência rápida, segura e protegida, além de garantir a privacidade. A Mastercard está trabalhando com parceiros em todo o mundo para levar essa experiência aos varejistas, com projetos-piloto planejados para o Oriente Médio, os EUA e a Ásia em um futuro próximo.
No Brasil, o caixa biométrico foi lançado neste verão em cinco lojas da rede St. Marche na região de São Paulo, onde o CEO Bernardo Ouro Preto afirma que a tecnologia está agilizando as filas e melhorando a experiência de compra.
Na verdade, foi uma longa fila que levou à criação da Payface. Os cofundadores Eládio Isoppo e Ricardo Fritsche se conheceram na universidade em Florianópolis, no sul do Brasil, mas Fritsche abandonou o curso antes de se formar em ciência da computação para fundar uma empresa de tecnologia educacional de sucesso. Avançando alguns anos: Fritsche voltou para a universidade para concluir sua graduação e, um dia, enquanto estava na fila do caixa do refeitório, pensou em aplicar a biometria aos pagamentos.
Ele se encontrou para tomar um café com Isoppo, um empreendedor serial com muitos contatos em bancos brasileiros e provedores de serviços de pagamento. Os dois lançaram a Payface em 2018 e trabalharam juntos para aprimorar a tecnologia e levá-la aos varejistas.
Assim que os planos para o projeto piloto começaram, a Payface também se juntou ao Mastercard Start Path, o programa de engajamento com startups da empresa, para fazer novas conexões e obter conselhos sobre como escalar a tecnologia. "Participar do programa Start Path nos ajudou a perceber o potencial da nossa tecnologia e como podemos trabalhar em conjunto com a Mastercard para transformar o setor de pagamentos", afirma Isoppo.
Os resultados do projeto-piloto até agora têm sido promissores: quase 1.000 pessoas se cadastraram e usaram seus dados biométricos para finalizar a compra — três vezes mais do que o esperado — com uma média de quase seis transações ao longo dos três meses do projeto-piloto. Uma pesquisa da Mastercard com quase 100 consumidores que se cadastraram no projeto piloto PayFace mostrou que 90% se sentiram confortáveis em fazê-lo e 76% recomendariam fortemente os pagamentos biométricos a um amigo.
Para começar, os clientes devem primeiro cadastrar suas credenciais de pagamento e dados biométricos — neste caso, tirando uma foto do rosto — na loja ou em casa, por meio do aplicativo Payface. Para proteger a privacidade do usuário, a foto é convertida em um modelo digital, uma série de uns e zeros, e então criptografada. Na hora de pagar na loja, os clientes sorriem para uma tela, que o software Payface Cloud compara com os modelos digitais dos usuários cadastrados para confirmar sua identidade. Em seguida, as credenciais de pagamento tokenizadas são processadas como uma solicitação de autorização normal.
O sistema de checkout biométrico requer novos equipamentos, mas, em muitos casos, as lojas podem usar tablets genéricos e de custo relativamente baixo. Como benefício adicional, essas telas biométricas também podem oferecer aos varejistas a oportunidade de incorporar ofertas de fidelidade e outros serviços personalizados no momento do pagamento.
O uso da biometria para autenticação de identidade remonta a séculos, talvez ao reinado de Hamurabi na Babilônia, há quase 4.000 anos, quando as impressões digitais eram usadas para selar contratos. Os padrões únicos das cristas dos dedos foram usados para autenticação ao longo dos séculos na China, no Japão e na Pérsia. No final do século XIX, as impressões digitais já eram utilizadas em investigações criminais — um duplo homicídio particularmente brutal em Buenos Aires, em 1892, é considerado o primeiro a ser solucionado através da comparação das impressões digitais encontradas na cena do crime com as do suspeito.
Na década de 1930, um oftalmologista propôs pela primeira vez o uso do padrão da íris como ferramenta de reconhecimento, mas a tecnologia só acompanhou essa ideia sessenta anos depois. E o precursor da atual tecnologia de reconhecimento facial instantânea remonta à década de 1960, quando o pioneiro da inteligência artificial Woody Bledsoe e seus colegas usaram um computador para calcular, armazenar e reconhecer as distâncias entre as coordenadas de rostos humanos a partir de fotografias.
Embora as agências de aplicação da lei utilizem impressões digitais desde a Revolução Industrial, foi somente neste século que a biometria se popularizou entre o público, principalmente com o surgimento dos leitores de impressões digitais em smartphones. O Índice de Novos Pagamentos de 2022 da Mastercard mostra que mais de seis em cada dez consumidores em todo o mundo acreditam que a biometria é mais segura do que um PIN, senha ou outras formas de identificação, incluindo a autenticação de dois fatores.
E novos tipos de biometria física estão surgindo — desde o reconhecimento de voz até os padrões dos vasos sanguíneos. Aliado ao crescimento da biometria comportamental — o estudo de como caminhamos, o ângulo em que seguramos o telefone, a velocidade com que digitamos — o uso da biometria continuará a se expandir à medida que mais aspectos de nossas vidas se tornam digitais.
A Mastercard investe em inovação biométrica há anos, tendo introduzido a autenticação biométrica para compras digitais em 2015 e lançado um cartão biométrico para segurança adicional em compras em lojas físicas no ano seguinte. A Mastercard passou anos desenvolvendo padrões para permitir que os consumidores usem seus dados biométricos em diferentes varejistas e fornecedores de tecnologia, em qualquer lugar do mundo.
Segundo Bhalla, a interoperabilidade é fundamental para concretizar o potencial da tecnologia; a biometria já pode ser usada não apenas para comprar uma garrafa de água no mercado local, mas também para acessar e compartilhar seus registros médicos ou verificar sua identidade para exames online ou compras com restrição de idade: “A biometria traz facilidade e segurança na mesma medida, e é nossa responsabilidade inspirar confiança em todos os lugares onde as pessoas interagem com o ecossistema digital, desde o caixa do supermercado até as compras online e o metaverso.”
Romeu Alves da Costa é um cliente do supermercado St. Marche que se cadastrou no programa de pagamento biométrico e se sente confortável em deixar sua carteira em casa.
“Adoro tecnologia, tudo o que é inovador e a praticidade de pagar apenas com o rosto”, diz ele após fazer uma compra na loja Jauaperi. "Consigo me imaginar pagando com o meu rosto no futuro em postos de gasolina, no transporte público, no cinema, em todo lugar."