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Inclusão

3 de janeiro de 2024

 

Os campos de futebol são um local de cura na Turquia devastada pelo terramoto.

"O campo de futebol é como uma demonstração da sociedade", diz um psicólogo da Save the Children. 'O que as crianças aprendem aqui, depois imitam na sociedade'.

Débora Lynn Blumberg

Colaborador

Em Fevereiro, quando um terramoto devastador atingiu a Turquia e a Síria, centenas de milhares de crianças viram o seu mundo desmoronar-se.

Só na Turquia, morreram mais de 50 mil pessoas. Casas e escolas foram danificadas ou destruídas. As famílias mudaram-se para "cidades de contentores" improvisadas, muitas vezes longe dos amigos.

Para muitas crianças, o trauma deixou cicatrizes emocionais, incluindo pesadelos e o hábito de acordar às 4h17 da manhã, hora a que ocorreu o primeiro sismo. A ONU estima que mais de 5,4 milhões de crianças na zona afetada pelo sismo correm o risco de desenvolver ansiedade, depressão e perturbação de stress pós-traumático.

“Conversei com muitas famílias que dizem: ‘Não reconheço os meus próprios filhos’”, afirma Ceyda Yelkalan, gestora de comunicação e defesa de direitos da organização humanitária global Save the Children Türkiye.

Segundo Yelkalan, o que estas crianças precisam para se curarem é de um lugar onde se possam concentrar apenas em serem crianças. Isto significa criar novos espaços seguros onde as crianças se possam divertir.

Algo parecido com jogar futebol.

Através do projeto “Pitches of Hope” — criado pela Mastercard, em parceria com a Fundação UEFA e implementado pela Save the Children — Yelkalan e os seus colegas estão a construir estes espaços. Por todo o sul da Turquia, estão a ser restaurados os campos de futebol destruídos durante o terramoto e as crianças estão a ser convidadas a participar em actividades relacionadas com o futebol, acreditando-se no poder curativo do desporto.

O epicentro do sismo localizou-se a cerca de 37 quilómetros a noroeste de Gaziantep. A Save the Children Türkiye, com o apoio da Mastercard e da UEFA, reconstruiu o campo de futebol local danificado pelo terramoto. (Foto cedida pela Save the Children Türkiye)

O projecto faz parte de uma longa lista de esforços empreendidos pela Turquia e pela comunidade internacional para reconstruir cidades e vilas afectadas. O projeto Pitches of Hope é uma vertente especializada deste trabalho, pois foca-se em ajudar as crianças, fortalecer a sua saúde mental e oferecer-lhes um local para brincar.

“Acreditamos no poder curativo do futebol, por isso unimos forças com o nosso parceiro de longa data, a UEFA Champions League, para dar a estas crianças a hipótese de voltarem a ser crianças”, afirma Yasemin Develioğlu, vice-presidente de marketing e comunicação da Mastercard Europa de Leste. “Através do projeto Pitches of Hope, procuramos eliminar os efeitos persistentes do terramoto, estabelecendo uma nova fonte de alegria e otimismo na vida das crianças.”

O projeto iniciou os seus esforços de restauro em junho passado num campo em Hatay, onde o teto tinha colapsado após o terramoto. Os residentes locais que perderam as suas casas usaram as instalações como abrigo temporário durante meses. Acenderam fogueiras para se aquecerem, deixando o campo — outrora utilizado para jogos informais e de liga — cheio de buracos e marcas de queimado.

A reparação dos danos levou algum tempo. Os trabalhadores tiveram de remover os destroços próximos dos edifícios que ruíram. Conseguir relva nova foi um desafio, assim como encontrar alojamento para as pessoas que trabalhavam no projeto. “Em Hatay, não se tem nem água canalizada nem eletricidade”, diz Yelkalan.

Com o campo restaurado, o psicólogo Mehmet Ali Akil, coordenador de proteção infantil da Save the Children e entusiasta do futebol, e os seus colegas começaram a trabalhar com crianças da região. A equipa desenvolveu uma série de jogos relacionados com o futebol que incentivam o trabalho em equipa, aumentam a resiliência e fortalecem o bem-estar mental. Programas como o Pitches of Hope são muito necessários, afirma, uma vez que, após um trauma, as crianças podem isolar-se, e muitas vezes isolam-se, das suas famílias e colegas.

“O campo de futebol é como uma demonstração da sociedade”, diz Akil. “O que as crianças aprendem aqui, depois imitam na sociedade.” Assim, desenvolveu atividades focadas em melhorar a comunicação, promover comportamentos respeitosos e gentis e aprender a expressar os próprios sentimentos.

Na foto acima, uma equipa liderada por uma psicóloga infantil desenvolveu jogos relacionados com o futebol para ajudar rapazes e raparigas em Hatay a recuperar do trauma psicológico causado pelo terramoto. (Foto cedida pela Save the Children Türkiye)

Em outubro, Akil reuniu-se com o primeiro grupo de dez crianças do programa no campo de Hatay para o que viriam a ser jogos quinzenais. O objetivo é trabalhar com 100 crianças em Hatay, onde existe uma lista de espera para o programa. Akil afirma que já está a ver crianças a apoiarem-se mutuamente enquanto criam estratégias, passam a bola e trabalham juntas como uma equipa para marcar golos.

A Pitches of Hope opera também em Gaziantep, a cerca de 160 quilómetros a nordeste de Hatay, cidade que acolhe milhares de refugiados que fugiram dos combates na Síria na última década. Naquela cidade, um complexo desportivo ficou tão danificado que os campos tiveram de ser demolidos antes que o terreno — utilizado como centro de busca e salvamento imediatamente após o terramoto — pudesse ser reparado. O projeto, que incluiu a modernização do sistema elétrico do campo, demorou dois meses. Com o programa em pleno funcionamento, um total de 100 crianças do bairro participarão no programa Pitches of Hope em Gaziantep nos próximos meses.

Uma das raparigas contou aos coordenadores do programa que nunca tinha jogado futebol porque achava que era um desporto para homens. “Agora ela está a dizer: ‘Tenho mais coragem’”, diz Yelkalan. “Estas crianças estão a aprender competências para a vida, a importância da igualdade e da inclusão de todas as crianças. Estão a afastar-se das preocupações do dia a dia e a criar novos laços e amizades.”

Os líderes do projeto estão ansiosos por distribuir os uniformes e chuteiras de futebol que foram encomendados como parte do programa e estão em processo de identificação de um terceiro campo para reparação. Esperam restaurar várias outras unidades este ano e no início do próximo. Estes campos serão recursos essenciais à medida que a região continua a recuperar lentamente do desastre.

“As famílias compreendem realmente o valor deste projeto”, diz Yelkalan. “Ainda há mais de 9 milhões de pessoas nestas áreas que precisam de apoio, muitas das quais são crianças. Este será um processo de recuperação a longo prazo.”